terça-feira, 15 de março de 2016

Ninguém completa ninguém.

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana acredita ser possível uma pessoa completar a outra. Eu discordo, mas esse é um ideal amoroso que faz parte da nossa cultura.
“Quero muito encontrar alguém que me complete!”, foi o que disse Paula ao chegar ao meu consultório. Continuou relatando suas frustrações na busca por um parceiro que lhe completasse. Queria casar, mas apenas com alguém que preenchesse a sua outra metade.
O casamento como única forma de realização afetiva é um mito alimentado no Ocidente e atinge a maioria das pessoas. Há a espera de um encontro com alguém que nos fará felizes para sempre.
A ideia é de que só é possível haver felicidade se existir um grande amor atinge, principalmente, as mulheres. Mesmo tendo vários interesses na vida e parecendo feliz, a mulher, quando está sozinha, sempre se pergunta se essa felicidade é real.
Não importa muito se a relação amorosa é limitadora ou tediosa. A maioria ainda considera que qualquer coisa é melhor do que ficar sozinha. Fundamental é ter um homem ao lado, o resto se constrói — ou se inventa.
Busca-se, portanto, desesperadamente, o amor. Acredita-se tanto nisso que a sua ausência abala profundamente a autoestima de uma pessoa e faz com que se sinta desvalorizada.
Mas na realidade ninguém complementa ninguém. Nosso sentimento de abandono não é resolvido pela presença do outro ao lado. Essa é uma busca pessoal, dentro de nós mesmos.
Homens e mulheres buscam a harmonia que um dia tiveram no útero da mãe. Único lugar aonde se encontra a satisfação imediata de todas as necessidades.
O mito criado e alimentado pela sociedade ocidental é o de que o amor romântico pode nos repor essa perda, na medida em que propõe a fusão entre os amantes, transformando os dois num só.
É comum considerar que o amor romântico implica atração instantânea — amor à primeira vista. Entretanto, essa atração imediata tem de ser completamente separada das compulsões sexuais/eróticas da paixão sexual.
“O primeiro olhar é uma atitude comunicativa, uma apreensão intuitiva das qualidades do outro. É um processo de atração por alguém que pode tornar a vida de outro alguém, digamos assim, ‘completa’.”, afirma o sociólogo inglês Anthony Giddens.
Nesse tipo de amor se idealiza o ser amado como parceiro de um encontro de almas que tem um caráter reparador. “O outro, seja quem for, preenche um vazio que o indivíduo sequer necessariamente reconhece — até que a relação de amor seja iniciada.”, continua Giddens.
Concordo com a escritora canadense Bonnie Kreps quando diz que nessa busca incessante do amor romântico, ou seja, de alguém que a complete, a mulher, na nossa cultura, quando encontra um par, se torna a Bela Adormecida ao avesso.
“Quando é beijada pelo homem (príncipe) não é despertada, ao contrário, adormece para quem é, para quem ele é, para a realidade. Adormece e se esforça para ficar adormecida.”

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